30 de agosto de 2018 Cultura no Divã

 
É instigante o estudo da origem da linguagem, em sua dimensão humana, sua especificidade e sua evolução. Antropólogos, linguistas, psicólogos e muitos outros são os que vão atrás de conhecer como surgiu, que fatores, que necessidades contribuíram para que a comunicação humana fosse desenvolvendo instrumentos mais sofisticados, representações mais precisas para a amplitude que a linguagem e a cultura demandam para suas representações. Entre muitos autores, o psicólogo Merlin Donald (1939- ) se debruçou sobre essa questão[1] e nos oferece um esquema das diversas etapas da evolução da linguagem humana, distinguindo-a daquela dos macacos, muitas vezes usada como comparação. Para Donald, uma das formas mais primitivas foi a mimesis, que tem uma função de representação intencional ainda que com base em uma imitação, seja gráfica, seja comportamental, de um evento, emoção ou outra necessidade de comunicação.

O surgimento da linguagem verbal, segundo Donald e autores como o antropólogo Steven Mithen (1960- ),[2] se dá a partir de demandas culturais e anatômicas que permitiram o surgimento da fala e da escrita como elementos de comunicação e de memória, ou seja, a linguagem com léxico, gramática e estrutura, independente da realidade concreta. Esse salto qualitativo importa porque permite narrativas pessoais, grupais, inventivas ou não, possibilita uma forma de expressão da psique humana cuja sofisticação e amplitude são inesgotáveis, seja qual for a cultura a que ela pertença. E no que isso concerne à psicanálise?

Historicamente é por intermédio de Jacques Lacan (1901-1981) que a psicanálise faz uma ponte com o estudo da linguagem – a Semiótica e a Linguística – traduzindo os conceitos presentes na obra de Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, para os conceitos mais precisos e estruturados da Linguística, via Roman Jakobson (1896-1982) e outros.

Dentro das diversas formas de comunicação, é na experiência psicanalítica que se dá uma das relações mais sofisticadas e delicadas da expressão humana: a fala do inconsciente e a escuta do psicanalista. Essa relação pressupõe fundamentalmente a atenção para o “não dito”, o ato falho, a pontuação, as pausas; enfim, uma espécie de metaescuta que vai além da narrativa verbal para a narrativa metafórica presente nas entrelinhas. É desde esse lugar que a escuta psicanalítica se dá: o lugar da metáfora e da metonímia por excelência, do salto do aparente da escuta banal para a lógica do discurso do inconsciente. Sem isso não há análise.

Contudo, podemos nos perguntar: em que medida essa escuta tão sofisticada está em perigo, considerando uma onda cada vez mais abrangente de linguagens simplistas e reducionistas utilizadas nas comunicações modernas tipo WhatsApp, Twitter e outras? Aqui tais formas linguísticas se reduzem muitas vezes a “memes”, a “emojis”, a abreviações como “Kkkk” ou “LOL”, e outras tantas. Não que deixem de comunicar, mas também expressam um certo empobrecimento no uso da linguagem que, paradoxalmente, volta a suas origens mais primitivas: o mimetismo.

Esse empobrecimento terá consequências na fala do inconsciente? Será que a nuance, o detalhe irão se perder porque representados de forma caricata, permitindo justamente uma fuga maior do sentido via simplificação? Será que a cultura tão ampla que é a do universo da internet e sua linguagem irá criar uma involução na forma de comunicação, de tal forma que as narrativas com suas riquezas semânticas, metafóricas e poéticas serão deixadas de lado?

A pressa da imagem reducionista omite a profundidade das camadas de mensagens que a escuta psicanalítica atenta permite. A palavra substituída por imagens ou rabiscos ofusca a construção de metáforas ou metonímias que revelam a estrutura do psiquismo que sofre. Nesse caso, a quem irá se dirigir a escuta psicanalítica? E, em última instância, quem escutará a escuta psicanalítica?

 
Notas:

[1] Cf. Donald, Merlin. Origin of the Modern Mind. Cambridge: Harvard University Press, 1991.
[2] Cf. Mithen, Steven. The Prehistory of the Mind: The Cognitive Origins of Art, Religion and Science. Londres: Thames and Hudson, 1996.

 
Imagem: Cultura no Divã | Editorial # 7 | São Paulo | 2018 | fotomontagem

 
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